Triste' com fim do Olímpico, Renato resgata cicatrizes da 1ª Libertadores
Ídolo gremista fala da dureza da final do torneio de 1983 e lamenta aproximação do adeus ao estádio: 'Na verdade, já estou muito triste'
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- Vou ficar triste. Na verdade, já estou muito triste (com a demolição do Olímpico, que deve ocorrer em março). Fico até arrepiado de falar - conta, em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM em seu luxuoso flat, no Rio de Janeiro.
Renato Gaúcho lembra as pancadas sofridas na Libertadores em 1983 (Foto: Claudio Lacerda/RBS TV)
Renato era conhecido por seus dribles desconcertantes, arrancadas
imparáveis e chutes potentes. Não usou nada disso, aos 32 minutos da
final da Libertadores de 1983. Acuado sobre a linha lateral, com dois
cães de guarda de amarelo e preto, alguns metros distante da linha de
fundo, não conseguia o espaço para a vitória pessoal. Improvisou um
balão para cima, à la futebol de praia, local que lhe seria tão grato no
futuro, e emendou um chute sem força, porém alto, que caiu na área
uruguaia com a potência de uma bomba atômica. E encontrou a cabeça
certeira do centroavante reserva César. Era o 2 a 1, e o inédito título
da América.Com o fim da partida se aproximando e a certeza da taça cada vez mais firme, Renato deixou o lado gênio, optou pelo genioso. E usou um zagueiro uruguaio como exemplo dos apertos pelos quais passara. Na época em que a Libertadores não tinha muitas câmeras no gramado, que a pancadaria era lei e falar português significava mau agouro.
- Só eu sei o que passei - confidencia. - No primeiro jogo da final em Montevidéu (1 a 1), apanhei demais. Todo mundo me batia de todas as formas. Sem contar as cusparadas. Fui aguentando, aguentando... até que vi a oportunidade no final do jogo. Foi uma forma de desabafo. Tenho cicatrizes nas pernas até hoje.
Aos 42 minutos, Renato trocou socos com Venâncio Ramos. O árbitro peruano Edson Perez expulsou-os no ato. Mas o mais importante o ponta-direita já havia feito: a diferença em campo.
- Nunca fui jogador de marcar muitos gols. Eu gostava mesmo era de aparecer nos jogos importantes - define.
Renato cita outros dois jogos com carinho ímpar. Primeiro, um amistoso com o Argentinos Juniors, de Maradona, dentro das festividades de inauguração do Olímpico Monumental (em 1980, o clube conseguiu completar todo o anel superior).
- Enfrentar o Maradona me marcou bastante - revela. - Aliás, eu cheguei ao Olímpico em meio à construção da parte superior. Aquela mobilização pela obra também é inesquecível.
Renato abraça capitão Hugo De León, com a taça na mão (Foto: Adolfo Alves/Agência RBS)
Um Gre-Nal também não poderia faltar. Além de ser decisivo na final da
Libertadores, Renato se imortalizou no Olímpico com os dois gols no
Mundial, contra o Hamburgo, em 1983. Ao ver o planeta aos seus pés,
decretou: "A Terra é azul". O amigo Mauro Galvão, então zagueiro do
Inter, retrucou, provocativo: "Mas o Rio Grande é vermelho", em
referência ao título gaúcho conquistado pelo Colorado naquele ano.Renato conseguiu armar um amistoso com o maior rival. Foi em janeiro de 1984 - uma espécie de troca de faixas. Deu Grêmio, 4 a 2, com direito a golaço e a mais um desabafo de Renato.
- Eu ainda não havia vencido Gre-Nal como profissional. Agora quero ver alguém falar - disparou, aos 21 anos. - Adversário agora só de outro planeta. Aqui na Terra já passamos por todos. Vamos precisar de um ônibus espacial para nos levar até um outro planeta.
'Quero ver pessoalmente', diz Renato sobre demolição
O fim próximo do Olímpico mexe com Renato. Questionado sobre a Arena, é lacônico e pouco entusiasmado.
Renato concede entrevista no Rio de Janeiro
(Foto: Divulgação/Memorial Herminio Bittencourt)
- Falar o que do que não conheço? Dizem que vai ser de nível europeu,
muito moderno... É o mínimo, já que vamos perder o Olímpico -
desconversa.(Foto: Divulgação/Memorial Herminio Bittencourt)
Como alento, Renato ficou sabendo que a placa com a gravação de seus pés na Calçada da Fama do clube será recolocada na Arena. Essa é a peça que o técnico gostaria de levar para casa como recordação do Olímpico, se pudesse.
Mas o estádio não foi apenas palco de grandes atuações, conquistas e homenagens. Renato também morou no Olímpico. De 1980 a 1982, nas concentrações dos juniores e dos profissionais. Até usava uma espécie de "passagem secreta" rumo à marquise, para tomar sol no verão gaúcho.
Agora, a sua praia é outra. Rio de Janeiro, onde aguarda por um novo clube para retomar a carreira de treinador. Mesmo distante, não descarta voltar a Porto Alegre para acompanhar a demolição do Olímpico.
- Sim, eu posso estar em Porto Alegre. É algo que estou pensando bastante, quero ver pessoalmente. É um fato marcante, principalmente para quem faz história.
E Renato está nessa lista. Fez história no Olímpico.
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